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10/01/2014 - 12h05 | Atualizado em 10/01/2014 - 12h05
Por Rui M. S. Almeida - médico e professor universitário

Para aonde caminha o Ensino Médico?

Finalmente o governo resolveu o problema da saúde neste País, através da Medida Provisória autoritária, que descontentou toda a classe médica e estudantes de Medicina e com o aumento do número de vagas nas escolas médicas. O governo resolveu criar, sem consulta e sem nenhum tipo de discussão com a comunidade acadêmica, o ciclo obrigatório de trabalho, no SUS, para todos os que cursarem as escolas médicas, a partir de 2015.

Esta atitude caracterizada pela falta de respeito por uma classe abnegada e que tem como finalidade a de melhorar a qualidade de vida da população só pode ter saído de alguém que desconhece o curriculum médico e a caracterização do trabalho médico. Não é de se estranhar que parta de quem vetou a coluna dorsal do muito discutido Ato Médico. Mais uma vez se tenta iludir a população e mudar o foco do problema para uma classe que tem pautado por um trabalho digno e sério.

A mudança foi o aumento do número de anos, de seis para oito, dos cursos de Medicina, sendo os dois últimos realizados em locais designados, pelo próprio governo, porém sem registro definitivo no Conselho Regional de Medicina. Exercer Medicina sem este registro é ilegal e obrigar alguém a realizar seu trabalho em um determinado local é inconstitucional, a não ser em carreiras previamente definidas e em que a entrada é voluntária.

Será que o erro está no currículo de nossas escolas médicas? Precisamos analisar como é construído o curriculum nas escolas de Medicina. A maioria tem dois anos de um ciclo básico, dois de um ciclo clínico e dois anos de internato, em que o aluno é integrado á rotina de atendimento de pacientes do SUS, tanto em regime hospitalar como em unidades de saúde dos municípios.  Nestes dois últimos anos, sob a orientação de professores presenciais, estudantes de medicina, atendem pacientes do SUS. Acrescentar mais dois anos à formação do curriculum médico, não vai contribuir para a melhoria da formação médica e para o melhor atendimento de nossa população sofrida e carente. A razão é de não haver, nesses locais, professores ou tutores, com formação acadêmica, para ensinar e se responsabilizarem por estes “novos futuros” médicos.  

Com a finalidade de aprimoramento de conhecimentos existe a Residência Médica, em que os egressos do curso, por livre escolha e após concurso público, passam a exercer a Medicina sob a orientação de preceptores, durante períodos de dois a seis anos.  É um período em que estes médicos, sob a orientação de profissionais experientes, que transmitem seus conhecimentos, assumem o tratamento de pacientes.

Aumentar o número de vagas ou criar novas escolas médicas, em locais sem uma cultura acadêmica e em escolas sem uma estrutura adequada, é um risco para a saúde brasileira. Aumentar o tempo do curso e obrigar indivíduos a exercerem a Medicina em locais desprovidos de preceptores, e com condições de infraestrutura e de auxílio ao diagnóstico, precárias ou inexistentes, não resolve o problema de saúde da população.

Talvez os currículos de medicina precisem ser revisados, mas deverá ser realizado por quem tem experiência e conhecimento acadêmico, após uma ampla discussão e através de Projeto de Lei, sem ferir a autonomia universitária. Acredito que o modo de resolver o problema de saúde no País, de uma maneira séria e eficiente, seja solidificar a formação profissional de modo adequado, com a melhoria dos currículos médicos das faculdades, após ampla discussão e o mais importante, duplicar o investimento governamental na área da saúde, após um debate com as organizações representativas destas classes.


* Publicado originalmente no Portal do CFM dia 10 de Janeiro de 2014



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